quarta-feira, 18 de junho de 2014

Querida ampulheta.


  Os ponteiros do velho relógio continuam a funcionar, até que surgem os flash's da minha memória. Minha norma inicial foi procurar descobrir entender as horas, o que cada ponteiro significava, de quantos minutos cada número que compõe internamente o relógio possuía.
  Teve um tempo que segui acreditando que as horas terminavam assim que chegava as doze horas, percebi ,com o tempo, que estava enganado, tudo ia muito além disso, ainda me restava as treze, catorze , quinze.... enfim vinte e quatro horas.
  Incorporei meu até então personagem infância, descobridor das coisas e com minhas bobas falas.

 - Eu sei ver as horas!
  Diante de minha nova descoberta me via um gênio, não sabia o motivo, a sensação era ótima, assim sempre quis informar a hora para todos que queriam sabe-lá. Então apreciei uma das minhas tolices infantis.
  As engrenagens seguem em funcionamento, e durante cada partida, se entrelaçam cada vez mais das extremidades do tempo, meu rosto estava em êxtase, meus impulsos ficaram desordenados, era de se hipnotizar aquele espetáculo insano.
  O espelho que fica no final do corredor sensualizou os meus olhos, dei alguns passos em sua direção, percebi a todos os instantes o processo de metamorfose que me submeti, a aproximação foi considerável, estava mais alto, o corte de cabelo tinha mudado, o formato do rosto ficou mais perceptível, a admiração se exaltou nos limites de minha face. Estava finalmente em confronto com o objeto, cara a cara.
  Os antigos álbuns de fotografia estavam guardados numa caixa no fundo do armário, esquecidos, empoeirados, as fotos, que lá estavam aprisionadas em revelações, mostravam diversas paradas permanentes em meu lapso. É incrível e notório a divergência do retrato ao reflexo do espelho, são tantas as mudanças que concluí que sou e continuarei a ser outras pessoas nesse caminho turbulento que chamamos de vida.
  Assim deixo velhas lembranças, sabendo que um dia poderei esquece-las.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Folha em branco.


  Cansei de lutar, cansei de sofrer. Não restou mais nenhum dedo para se ter noção da probabilidade que tive de aniquilar meu vasto conjunto de feitios que permanecem a beira de minha sombra e reconstruir aquilo que realmente devo mostrar, transmitir a real intensão, que julguei de prisioneira no fundo do precipício.
  Há uma onda predestinada a atingir a cogitação do nosso ciclo natural, é uma reação conhecida no entanto codificada. As causas são mínimas, já os efeitos colaterais catastróficos.
  Desprezei todos os fatos que subjugam a essência de um encargo individual, nunca consegui seguir essa linha de raciocínio, sempre desconfiei dos meios, nunca acreditei nas conclusões.
  Cheguei a defender algumas causas, muitas vezes opostas do habitual, acreditando numa provável ideia que me faça enxergar a necessidade de fortalecer minhas razões, colocando-as em conforto contra a próprio tradicional.
  Sigo perambulando despercebido, ninguém me conhece, desconhecem o que faço, imaginam no que reflito, tentam desesperadamente vasculhar e buscar assimilar meu funcionamento. Total perda de tempo, os resultados são humilhantes e misteriosos. Surge mais uma explicação.
  Encontramos simplesmente nada. A busca se mostrou desnecessária e imprestável. Esforços foram em vão. Em instantes tudo foi devastado, o que procurava desapareceu, poderia entrar em pânico, mas continuo tranquilo.
  As consequências me forçaram a recomeçar, assim será sucessivamente. Uma mensagem será apagada, um computador é reiniciado, o dia se passa e outro vem a lhe ocupar, a árvore desmatada outrem ocupará seu lugar. Da folha rasgada, haverá páginas restantes para dar a próxima largada.